quinta-feira, 4 junho, 2026
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Pesquisa da Unemat de Alta Floresta transforma árvore nativa da Amazônia em alternativa sustentável para combater praga agrícola

Uma árvore nativa da flora brasileira, popularmente conhecida como pente-de-macaco ou escova-de-macaco (Apeiba tibourbou), está se tornando a principal matéria-prima para uma inovação biotecnológica na Amazônia Meridional.

Cientistas do Centro de Pesquisa e Tecnologia da Amazônia Meridional (Ceptam), do câmpus de Alta Floresta da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), estão desenvolvendo um inseticida natural encapsulado capaz de combater uma das pragas mais temidas do agronegócio nacional: a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda).

“A iniciativa é uma tecnologia sustentável que aumenta a eficiência de inseticidas botânicos por meio de encapsulamento, reduzindo perdas por insetos-praga e minimizando impactos ambientais”, explicou a coordenadora do projeto, professora Juliana Garlet, doutora em Engenharia Florestal e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Agroecossistemas Amazônicos da Unemat (PPGBioAgro).

Inimigo de lavouras, pastagem e plantios florestais

A lagarta do gênero Spodoptera é uma velha conhecida dos agricultores brasileiros. Altamente polífaga, ela consegue se alimentar de uma vasta gama de plantas. Para se ter uma ideia, são mais de 350 espécies hospedeiras registradas no país, inclusive gramíneas e plantios florestais.

Ela causa desfolha severa e destrói o ponto de crescimento de cultivos como milho, soja, algodão e arroz. No milho, onde sua voracidade é ainda maior, o ataque direto ao “cartucho” da planta pode provocar perdas de até 70% na produção se nenhuma medida for tomada.

Atualmente, a produção agrícola depende do controle químico intensivo e até de lavouras transgênicas. No entanto, o uso excessivo desses métodos acelerou a seleção de populações de lagartas super-resistentes. “Tornou-se urgente a busca por novos compostos ecológicos”, justifica a coordenadora do projeto.

A força da árvore nativa

A grande aliada dos cientistas da Unemat é a Apeiba tibourbou. Essa árvore nativa, que chega a medir entre 10 e 15 metros de altura e desenvolve frutos espinhosos, possui metabólitos secundários como taninos e terpenoides em suas folhas.

Pesquisas anteriores do grupo já haviam comprovado que o extrato bruto dessas folhas funciona como um potente inseticida natural.

Contudo, a ciência enfrentava um obstáculo prático: os inseticidas botânicos são fotoinstáveis. Ou seja, estragam rapidamente quando expostos ao sol, ao calor e ao oxigênio do campo, perdendo o efeito residual em pouquíssimo tempo.

A virada tecnológica: o encapsulamento

Técnica inovadora de baixo custo protege o inseticida ecológico contra o calor e o sol, viabilizando o uso no campo

Para blindar o princípio ativo da planta, a pesquisa coordenada no Laboratório de Silvicultura da Unemat aposta na tecnologia de encapsulamento. Trata-se de “embalar” as moléculas do extrato vegetal dentro de estruturas protetoras feitas de materiais solúveis de baixo custo.

“O encapsulamento cumpre três funções vitais: protege o composto contra a degradação solar, facilita o transporte e o manejo pelo agricultor, e permite que o princípio ativo seja liberado de forma controlada na lavoura, diminuindo a quantidade de aplicações”, detalha a professora Juliana Garlet.

Da Universidade para o mercado

O projeto segue um cronograma rigoroso. Os testes biológicos (bioensaios) em laboratório irão continuar, juntamente com o processo de criação dos insetos. A meta é gerar formulações que alcancem uma mortalidade igual ou superior a 80% das lagartas em até 72 horas, competindo de igual para igual com a eficiência dos produtos comerciais sintéticos, mas sem agredir o ecossistema.

“Estudos como este demandam tempo, recursos financeiros e humanos. O investimento em pesquisa é essencial para o desenvolvimento de estudos que estejam alinhados as demandas atuais do setor produtivo. Os resultados são fruto de dissertações, trabalhos de conclusão de curso e projetos de pesquisa desenvolvidos por estudantes dos cursos do câmpus de Alta Floresta”, explicou a pesquisadora.

A equipe envolvida na pesquisa inclui docentes, estudantes de graduação e pós-graduação. Da esq. para a direita: Amanda Yukari Sasaya (PPPGbioagro), Felipe Dela Justina (Engenharia Florestal) Rayanne Pedrosa dos Santos (Agronomia), Cauane Caroline Cervini Pelizzar (Engenharia Florestal), a professora e pesquisadora Juliana Garlet, Larissa Pereira Oliveira Fuzinatto (PPPGbioagro), Lais Jhullian Borges da Fonseca (Agronomia) e Leticia David Peres (Biologia).

Ao final, a expectativa é entregar um novo produto ao mercado. Mas antes de ser comercializado, ainda precisam ser realizados testes em casa de vegetação (que é um tipo de estrutura coberta e abrigada artificialmente com materiais transparentes) e em campo, para análises do potencial inseticida em condições reais de ataque do inseto-praga. Posteriormente, a equipe vai buscar parcerias para melhorar ainda mais a eficiência possibilitando, por exemplo, o nanoencapsulamento que representará um avanço significativo nesta tecnologia.

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