A colheita de uma árvore madura, derrubada dentro das regras do manejo, foi o momento que mais marcou Maria Eduarda Andreolla. Estudante do 7º semestre de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus de Sinop, ela esteve entre os 15 alunos que passaram um dia no meio da floresta manejada durante a 6ª edição do Dia na Floresta, na Fazenda Leonel Bedin, em Ipiranga do Norte.
No campo, a turma acompanhou cada etapa do manejo florestal sustentável e entendeu que a floresta já está toda mapeada antes de qualquer corte. As árvores são identificadas por placas de cores diferentes, que indicam o que fazer com cada uma: as de placa verde estão liberadas para a colheita seletiva; as de placa azul ficam de pé por mais duas a três décadas, até o ciclo seguinte; e as de placa vermelha, matrizes que dão sementes, não saem do lugar e garantem a regeneração da área.
A demonstração de colheita foi feita com um exemplar de cedrinho, espécie usada na fabricação de forros e prateleiras, inventariado sob a placa de identificação 2248.
Acompanhar o passo a passo do manejo deu sentido ao curso e abriu possibilidades para o futuro.
“No início da graduação eu não tinha dimensão da grandiosidade da engenharia florestal, mas me surpreendi muito com a prática. Até hoje nunca tinha passado tanto tempo em uma floresta. Eu não conhecia em detalhes como funcionava o manejo e fiquei encantada com cada processo. Ver a colheita de uma árvore madura foi o que mais me marcou”, contou Maria Eduarda.
Para Ana Carolina Esteves, do 8º semestre, a visita coincidiu com a disciplina de manejo, que ela cursa neste semestre. Acompanhar no campo o que vinha estudando deu outro sentido ao conteúdo. “Foi muito gratificante ver o que a gente aprende em sala sendo colocado em prática. Poder acompanhar todas as etapas, com os guias, foi uma experiência transformadora”, afirmou.
A turma foi levada ao evento por incentivo do professor Dirceu Lúcio Carneiro de Miranda, engenheiro florestal com mestrado e doutorado em manejo. Para ele, o setor discute decisões que os futuros profissionais precisam conhecer de perto. “Esses eventos trazem a realidade do que acontece em Mato Grosso no manejo de florestas tropicais. O manejo é um dos grandes pilares da engenharia florestal, então é fundamental que os alunos saibam o que está sendo feito, discutido e decidido sobre as florestas da nossa região”.
Na segunda parte do roteiro, os estudantes foram conduzidos à Madeireira São Miguel, em Sinop, onde acompanharam a transformação das toras em matéria-prima para a construção civil e a fabricação de móveis. Os alunos viram que a árvore é aproveitada por inteiro: o pó da serra vira combustível e até os retalhos menores, antes sem serventia, hoje encontram comprador. O que sai da floresta numerado e rastreado segue assim até virar produto.
“É de extrema importância que a sociedade e, principalmente, a próxima geração saibam como funciona o manejo florestal sustentável”, afirmou o presidente do Cipem, Gleisson Tagliari. “São esses estudantes que vão conduzir o setor daqui a alguns anos. Quanto mais cedo conhecerem a realidade da floresta manejada, mais preparados estarão para defender e aprimorar a atividade”.
Ensino e setor produtivo lado a lado — A parceria do Cipem com instituições de ensino não é de hoje. O evento também reuniu pesquisadores de fora do estado: a engenheira florestal Gracialda Costa Ferreira, professora doutora da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que trabalha em parceria com o setor desde 2022, e Marcela Gomes da Silva, professora doutora em anatomia da madeira pela mesma instituição.
Gracialda apresentou, no seminário técnico, o Guia de Identificação Botânica, ferramenta que organiza as informações dos inventários florestais para que as empresas reconheçam com segurança as espécies presentes em suas áreas de manejo. O objetivo é reduzir erros de identificação e agrupamentos equivocados de madeira, o que dá mais homogeneidade aos produtos e mais confiança a quem compra.
Marcela, especialista em anatomia e identificação de madeiras, trabalha com a leitura da estrutura interna do material, método que permite distinguir as espécies com precisão técnica e garante maior respaldo científico ao esforço de identificação.
A 6ª edição do Dia na Floresta foi promovida pelo Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso (Cipem), em parceria com o Sindicato das Indústrias Madeireiras do Norte do Estado de Mato Grosso (Sindusmad), a Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (Fiemt), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT) e o programa REM Mato Grosso.
