quinta-feira, 6 agosto, 2026
InícioCIDADESAlta Floresta amplia rede de pontes de dossel com oito novas travessias...

Alta Floresta amplia rede de pontes de dossel com oito novas travessias para animais silvestres

Segunda etapa do programa Alta Floresta Não Atropela será realizada de 3 a 20 de agosto; iniciativa já registrou quase 15 mil travessias de animais e contribui para a proteção de seis espécies de primatas amazônicos

Alta Floresta (MT) instalará oito novas pontes artificiais de dossel durante a segunda etapa do programa Alta Floresta Não Atropela (AFNA), realizada entre os dias 3 e 20 de agosto de 2026. Com a ampliação, o município passará a contar com 15 estruturas destinadas a reconectar fragmentos florestais, permitir o deslocamento seguro de animais arborícolas e reduzir os atropelamentos de fauna nas vias urbanas.

A iniciativa é coordenada pela bióloga Fernanda Abra, do Projeto Reconecta, vencedora do Whitley Award 2024 e reconhecida pela National Geographic Society como National Geographic Explorer. As novas estruturas seguirão o modelo técnico desenvolvido pelo Projeto Reconecta e incorporado às diretrizes nacionais do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

Quase 15 mil travessias registradas
As primeiras sete pontes de dossel foram instaladas em Alta Floresta em outubro de 2024. Em 15 meses de monitoramento por câmeras, o programa registrou quase 15 mil travessias de animais silvestres. Seis espécies de primatas já utilizaram as estruturas, entre elas espécies raras e ameaçadas de extinção.

Desde a instalação das pontes, também não foram registrados novos atropelamentos de primatas nas áreas diretamente contempladas pelas estruturas. Os resultados demonstram o potencial dessas passagens para restabelecer a conectividade do dossel e reduzir os riscos enfrentados pela fauna em ambientes urbanos.

Foto: Projeto Reconecta

“Os resultados mostram que as pontes não são apenas estruturas experimentais: elas são utilizadas diariamente pelos animais e oferecem uma alternativa segura para o deslocamento entre os fragmentos florestais. Alta Floresta está demonstrando que é possível conciliar desenvolvimento urbano, segurança viária e conservação da biodiversidade”, afirma Fernanda Abra.

“O reconhecimento da National Geographic Society foi um marco para todos nós. Ele permitiu levar Alta Floresta e sua extraordinária biodiversidade a uma audiência global. Quando ciência, poder público, empresas e comunidade trabalham juntos, é possível transformar desafios locais em soluções capazes de inspirar outras cidades”, destaca Fernanda Abra.

Oito novas pontes em pontos estratégicos
As novas pontes serão instaladas em quatro vias que concentram registros de incidentes envolvendo animais silvestres:
• quatro na Avenida Teles Pires;
• duas na Rua Raimundo Carlos de Figueiredo;
• uma na Avenida Jaime Veríssimo de Campos;
• uma na Avenida Mato Grosso.

As estruturas utilizarão o sistema conhecido como “3 em 1”, formado por elementos que atendem às diferentes formas de locomoção dos animais: uma ponte com cordas entrecruzadas, uma ponte composta por cabo de aço e cordas trançadas e um cabo superior que auxilia o deslocamento de espécies com cauda preênsil.

Outra novidade desta etapa é a participação da Energisa na adequação da rede elétrica próxima às travessias. A empresa realizará o rebaixamento das redes e o isolamento dos cabos em dez pontos, incluindo duas pontes já existentes, para diminuir o risco de choques elétricos em animais silvestres.

Foto: Projeto Reconecta

Uma cidade amazônica com seis espécies de primatas

A área urbana e periurbana de Alta Floresta abriga seis espécies de primatas: o macaco-aranha-de-cara-branca (Ateles chamek), o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi), o sauim-de-Schneider (Mico schneideri), o bugio-ruivo-do-rio-Purus (Alouatta puruensis), o macaco-prego (Sapajus apella) e o macaco-da-noite (Aotus sp.).

Quatro delas estão ameaçadas de extinção em nível global. O zogue-zogue-de-Alta-Floresta é classificado como Criticamente em Perigo e foi descrito pela ciência apenas em 2019. Essa espécie é o animal símbolo de Alta Floresta. O macaco-aranha-de-cara-preta e o sauim-de-Schneider são classificados como Em Perigo, enquanto o bugio-ruivo-do-rio-Purus é considerado Vulnerável.

Essa diversidade confere a Alta Floresta uma importância singular para a conservação dos primatas amazônicos. Ao mesmo tempo, a expansão urbana e a abertura de vias fragmentam os remanescentes florestais, interrompem as rotas naturais de deslocamento e expõem os animais a atropelamentos, eletrocussões e outros riscos.

“Ver o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, uma espécie que existe apenas na nossa região e que se tornou um símbolo da cidade, utilizando as pontes de dossel é algo emocionante. Cada travessia registrada representa uma oportunidade de sobrevivência para essa espécie criticamente ameaçada e reforça a importância de investirmos em soluções que mantenham a floresta conectada.” – Vitória Da Riva, Fundação Ecológica Cristalino

Modelo tornou-se referência nacional
O modelo de ponte de dossel desenvolvido pelo Projeto Reconecta e implementado em Alta Floresta passou a integrar as orientações técnicas nacionais para a mitigação dos impactos das rodovias sobre a fauna.

Foto: Projeto Reconecta

Em abril de 2026, o DNIT publicou o livro “Segurança Viária e Conservação da Fauna: Medidas de Mitigação para Reduzir Impactos sobre Animais Silvestres em Rodovias Federais Brasileiras”. A publicação apresenta diretrizes e projetos técnicos para diferentes medidas de mitigação, incluindo o modelo de ponte artificial de dossel adotado pelo programa.

Com a instalação das novas estruturas, Alta Floresta consolida-se como município Amazônico pioneiro na aplicação de uma solução brasileira para redução de impactos causados pelas vias e o tráfego sobre a fauna silvestre.

Parceria entre ciência, poder público e iniciativa privada
A segunda etapa do Alta Floresta Não Atropela é realizada pela Prefeitura de Alta Floresta, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e Conselho Municipal de Segurança Pública, pelo Projeto Reconecta, pela Energisa, pela Fazenda Anacã e pela Fundação Ecológica Cristalino.

O projeto conta com recursos e apoio da Whitley Fund for Nature, National Geographic Society, Sounds Right e Smithsonian’s National Zoo and Conservation Biology Institute.

A Prefeitura oferece contrapartidas para a aquisição de postes e cruzetas, disponibilização de caminhão munck e alimentação das equipes. A Fazenda Anacã contribui com hospedagem, alimentação e recursos humanos, enquanto a Fundação Ecológica Cristalino apoia as ações de hospedagem, educação ambiental e divulgação.

Lançamento da segunda etapa
O lançamento oficial da segunda etapa do programa Alta Floresta Não Atropela será realizado no dia 10 de agosto de 2026, às 19h, no Teatro da Praça do Avião, em Alta Floresta.

O evento contará com representantes do poder público, das instituições parceiras e da comunidade local, incluindo o prefeito de Alta Floresta, a secretária municipal de Meio Ambiente, Gercilene Meira, e o diretor municipal de Segurança Pública.

Alta Floresta Não Atropela além das pontes

Além das pontes de dossel, o Municipio também mantém um outdoor em local privilegiado da cidade a fim de que a população acompanha a contagem de número de travessias nas pontes da cidade. Essa é uma forma de engajar a população e conhecerem os resultados do projeto.

O município também adotou 40 placas de sinalização de travessia de fauna especiais utilizando as silhuetas dos animais da cidade, especialmente do Zogue-zogue-de-Alta-Floresta e outros primatas. Também, em 2024 1300 crianças das escolas de Alta Floresta participaram de atividades de educação ambiental para aprender sobre a diversidade dos primatas locais e a respeitá-los. Em 2026, escolas da rede pública de Alta Floresta participarão de atividades lúdicas como confecção de mascaras com as faces dos primatas da cidade, além de participarem de visitas guiadas no Parque Zoobotânico e assistirem a um vídeo documentário sobre a fauna da região de Alta Floresta produzido pelo fotógrafo e cineasta da vida selvagem, João Paulo Krajewski.

Ainda, a equipe do Projeto Reconecta e Professores e alunos da UNEMAT e Universidade Federal de Viçosa farão o 1º Censo de primatas da área urbana de alta Floresta. Será criada uma metodologia unindo censo de transecto a pé com drones termais para detecção dos primatas em quatro fragmentos florestais do município, Fazenda Anacã, Reserva Surucuá, Parque Zoobotânico Leopoldo Linhares Fernandes e Floresta Experimental da UNEMAT. Essa metodologia será replicada ao longo dos próximos anos e servirá de linha base para compreensão da dinâmica populacional das espécies do município.

“Realizar o primeiro censo de primatas da área urbana de Alta Floresta é fundamental para conhecermos melhor o tamanho, a distribuição e a situação dessas populações nos fragmentos florestais do município. Mais do que produzir um retrato deste momento, queremos estabelecer uma linha de base científica e manter o monitoramento ao longo dos próximos anos. Pesquisas de longo prazo são essenciais para identificarmos mudanças populacionais, avaliarmos os efeitos da urbanização e das ações de conservação e orientarmos decisões mais eficazes para garantir a permanência dessas espécies em Alta Floresta”, explica Luan Goebel, pesquisador do Projeto Reconecta que liderará o censo.

Sobre o Alta Floresta Não Atropela
Lançado em 2024, o Alta Floresta Não Atropela é um programa pioneiro que reúne ciência, poder público, iniciativa privada e comunidade para reduzir os impactos das vias urbanas sobre a fauna silvestre. Suas ações incluem a instalação e o monitoramento de pontes de dossel, medidas de segurança para a fauna e atividades de educação e sensibilização ambiental.

Além das estruturas instaladas em Alta Floresta, o Projeto Reconecta participa da manutenção e do monitoramento de 32 pontes de dossel distribuídas ao longo de 125 quilômetros da BR-174, no trecho que atravessa a Terra Indígena Waimiri Atroari, entre Amazonas e Roraima.

“O Reconecta e o Programa Alta Floresta Não Atropela transformaram Alta Floresta em uma referência para a conservação da fauna em áreas urbanas da Amazônia. Os resultados demonstram que, com ciência, parceria e planejamento, é possível proteger a biodiversidade e promover o desenvolvimento sustentável.” -– Gercilene Meira Leite, Secretária Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Alta Floresta.

“Para nós, é uma grande honra ter três pontes de dossel instaladas próximas à Fazenda Anacã. As pontes ajudam a manter os animais seguros e, ao mesmo tempo, fortalecem o turismo de natureza, permitindo que visitantes conheçam a extraordinária biodiversidade da região. É um excelente exemplo de como conservação e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos.” – Fernão Prado, Fazenda Anacã.

Participe do nosso grupo de Whatsapp

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Mais popular