Caso o Brasil utilizasse sua capacidade total de vacinação, de 1 milhão de pessoas por dia, em cinco meses toda a população adulta receberia ao menos a primeira dose das vacinas contra a covid-19, o equivalente a mais de 161 milhões de pessoas. Isso significa 76% do total de brasileiros, o que, segundo a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, divulgadora científica pela Rede Análise COVID-19, seria um passo importante para desafogar o sistema de saúde do país, que enfrenta um colapso com a falta de leitos de UTI em todos os Estados.
“Se aliarmos essa capacidade de vacinação com as medidas de enfrentamento, como usar máscara, fazer higienização, manter o distanciamento físico e evitar aglomerações, poderemos observar um impacto na hospitalização e na transmissão do vírus”, afirma Mellanie. Em Israel, um dos primeiros países no mundo a iniciar a campanha de vacinação, houve uma queda de 60% no número de internações entre idosos vacinados contra a covid-19. Vale ressaltar que a imunização completa só ocorre após a aplicação da segunda dose.
A pediatra Flávia Bravo, diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), destaca que o país é referência mundial em imunização e que durante a epidemia de H1N1, em 2010, vacinou mais de 80 milhões de pessoas em apenas três meses. “Já conhecemos a capacidade do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Então, a princípio, o PNI seria capaz de vacinar pelo menos 1 milhão de pessoas por dia, e aí aumentar essa capacidade. O entrave é a desorganização na aquisição de vacinas”, avalia.
A especialista também chama a atenção para a campanha de vacinação que ocorre nos Estados Unidos, na qual mais de 2,5 milhões de pessoas têm sido imunizadas por dia. “Se eles [os EUA] estão conseguindo vacinar mais pessoas sem a menor experiência e a estrutura que nosso PNI sempre teve, eu suponho que o Brasil também seria capaz. Precisamos aumentar o que já somos capazes, isso vai determinar o tempo que vamos conseguir vacinar a população”, afirma.
Apenas 11,2 milhões de brasileiros receberam a primeira dose das vacinas (CoronaVac e vacina de Oxford) liberadas para uso emergencial pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) desde janeiro deste ano. O número de pessoas que receberam a segunda dose é ainda menor, apenas 2,7 milhões, o que corresponde a 1,3% da população total, de acordo com o Vacinômetro. Neste ritmo, o país levaria dois anos e meio para aplicar a primeira dose da vacina contra a covid-9 em todos os brasileiros e quatro anos e meio o esquema completo, de duas doses, segundo o painel "Monitora Covid" da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).
Segundo a biotecnologista Larissa Reis, doutoranda em genética e biologia molecular, que também integra a Rede Análise COVID-19, a dificuldade do país em conseguir o desempenho já atingindo em outros momentos, no entanto, está na alta demanda por vacinas que parte de uma procura em escala global.
“O que nos impede é que não temos vacinas disponíveis, porque a estrutura de vacinação e de distribuição a gente tem. É uma pandemia na qual todos os países querem as vacinas o quanto antes, e os laboratórios têm uma capacidade limitada de produção. O Brasil acabou ficando atrasado na questão de garantir as doses das vacinas, não agilizou os acordos, como no caso da Pfizer [única vacina com registro definitivo no país] e acabou ficando no final da fila”, afirma.
Imunidade de rebanho
De acordo com a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, ainda não é possível prever quando o país atingirá uma imunidade coletiva contra o coronavírus. “Isso só acontece quando mais de 70% das pessoas estão imunizadas com as duas doses das vacinas, então se cria uma barreira imunológica que protege até os que ainda não puderam se vacinar”, afirma.
