quinta-feira, 27 agosto, 2026
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Artigo: Quem Defende os Trabalhadores Também Precisa Ser Defendido

Nenhuma luta coletiva sobrevive quando aqueles que a sustentam são deixados sozinhos diante das pressões, das cobranças e das próprias divisões.

Precisamos conversar sobre nossos líderes sindicais.

A saúde mental de quem atua nos sindicatos é marcada por uma rotina de intensa sobrecarga emocional e desgaste crônico. Dirigentes e profissionais dessas entidades convivem diariamente com conflitos, demissões, assédio, precarização, injustiças e sofrimento enfrentados pelos trabalhadores.

A exposição constante à dor alheia cobra um preço. O contato direto com relatos de abusos, desrespeito, falta de compromisso e condições precárias de trabalho desgasta as forças emocionais de quem está na linha de frente.

A sobrecarga de responsabilidades também é permanente. Muitos líderes sindicais precisam atender simultaneamente a diversas demandas, mediar conflitos, acompanhar negociações, orientar trabalhadores e cobrar providências dos empregadores.

O cenário se agrava quando surgem conflitos internos nas próprias entidades sindicais. Disputas de poder, pressões administrativas, divergências pessoais e ataques entre membros acabam enfraquecendo ainda mais a direção.

Muitas vezes, cobra-se dos líderes uma capacidade ilimitada de resolver problemas, como se fosse possível conquistar tudo imediatamente. Ignoram-se as dificuldades enfrentadas pelas instituições sindicais, os ataques que elas sofrem, a redução de recursos e a complexidade das negociações.

A falta de reconhecimento por parte de quem é representado também tem afastado muitos líderes. Pessoas que durante anos se dedicaram à defesa da categoria estão cansadas, desmotivadas, desistindo ou simplesmente deixando de participar.

Se esse processo continuar, o movimento sindical ficará cada vez mais fraco. E, quando aqueles que defendem os trabalhadores são enfraquecidos, todos perdem.

Sem organização, união e representação, a classe trabalhadora se torna presa fácil para seus algozes.

Por isso, é necessário fazer uma reflexão sincera e uma autorreflexão coletiva. Estamos ajudando a fortalecer quem nos defende ou apenas criticando e atirando pedras em quem está na linha de frente?

É preciso compreender que os líderes sindicais também são trabalhadores. Eles também sentem medo, cansaço, frustração e insegurança. Também precisam de apoio, respeito, diálogo e reconhecimento.

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar o enfraquecimento da participação sindical e as narrativas que desconstroem e desvalorizam o trabalho dessas entidades. Quando a representação coletiva perde força, os trabalhadores também perdem capacidade de organização, mobilização e negociação.

E existe ainda uma contradição que precisa ser enfrentada. Enquanto muitos trabalhadores se afastam das entidades, alguns sindicatos entram em disputas por bases territoriais e acabam se autodestruindo em conflitos que poderiam ser resolvidos pelo diálogo, pelo bom senso e pela responsabilidade coletiva.

A que ponto chegamos?

Ilson Galdino – Servidor Público e Advogado

É lamentável perceber tanta falta de consciência de classe e de respeito pelas entidades sindicais. Nenhuma instituição é perfeita. Toda entidade precisa ser cobrada, fiscalizada e aprimorada. Mas destruir a representação coletiva não corrige seus problemas. Ao contrário, deixa os trabalhadores ainda mais vulneráveis.

Criticar pode ser necessário. Criticar sem contribuir, porém, dividir sem propor soluções e atacar sem compreender o contexto apenas favorece aqueles que desejam uma classe trabalhadora desorganizada e sem capacidade de reação.

Precisamos cobrar transparência, responsabilidade e resultados, mas também oferecer colaboração, respeito e participação.

Quem está à frente de uma entidade sindical não deve ser tratado como inimigo. Deve prestar contas, naturalmente, mas também precisa ser ouvido, compreendido e apoiado.

A defesa dos trabalhadores não pode depender apenas da coragem de poucos. Ela precisa ser uma responsabilidade compartilhada.

Se queremos sindicatos fortes, precisamos fortalecer seus representantes.

Se desejamos respeito no ambiente de trabalho, devemos começar respeitando aqueles que enfrentam gestores, empregadores e estruturas de poder para defender nossos direitos.

A luta sindical só permanecerá viva quando houver união, consciência de classe e compreensão de uma verdade que parece simples, mas que muitas vezes esquecemos.

Ninguém consegue vencer sozinho.

E talvez essa seja a reflexão mais importante de todas. Quem defende os trabalhadores também precisa ser defendido.

Edmar Silva – Servidor Público e Diretor Presidente do SISPUMAF

Ilson Galdino – Servidor Público e Advogado.

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